TUA VINHARIA
 
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Vinhos de guarda

Há, no mundo dos vinhos, conceitos que nem sempre recolhem grande simpatia junto dos consumidores finais. Muitos daqueles que compram vinho para o beber (afinal é para isso, não é?) não estão muito interessados em saber qual o ano da colheita, se é um vinho de guarda, descobrir taninos ou frutos secos no paladar.

Mesmo a sugestão de decantar o vinho ou abrir um pouco antes de o consumir vem muitas vezes acompanhado de um nariz torcido. Quando aqui abrimos a última garrafa de Vinha das Colmeias (sim, acabou, mas mais virão) foi consensual que o vinho estava pronto a beber e foi também consensual que ao último copo o vinho estava um pouco melhor. O mesmo nos aconteceu quando abrimos, por exemplo, o Quinta dos Castelares Reserva ou o Wine Note.

Temos também alguns clientes que procuram vinhos de guarda, ou especificamente Vinhas Velhas. Há quem procure vinhos sem madeira ou brancos com muita madeira. No vinho, como em quase tudo, gostos não se discutem.

No início de 2020 decidi guardar vinhos para abrir quando chegar aos 50 anos de idade. Eu que nunca guardo vinho em casa por mais de uma semana estou a pensar seriamente guardar uns quantos que bebi recentemente e prova-los daqui a uns anos.

Questionei alguns produtores e as respostas são surpreendentes, já que para além dos esperados elogios à capacidade de guarda dos reserva as sugestões incluem brancos e até espumantes.



Arcossó, mais do que vinho uma região.

Amílcar Salgado, da Quinta de Arcossó preferiu telefonar para trocarmos umas impressões sobre os vinhos para guardar, os vinhos que iremos ter de encomendar e uma visita a Arcossó prometida para o mês de Março. Estes transmontanos são, obviamente, vinhos com muita capacidade de guarda. Sugeriu guardar o branco de 2018 e nos tintos o reserva ou o grande reserva de 2008. Ou mesmo o de 2007. Faz parte do trabalho ir acompanhando a evolução dos vinhos e por isso Amílcar vai guardando alguns e de quando em vez recua uns anos para perceber como evoluíram.

Ora, na TUA VINHARIA, não temos (para já) esses de 2008 ou anteriores. Vamos guardar, então, o Reserva Tinto de 2012 e o Branco de 2018.


Alma freixenista

De Freixo de Espada à Cinta e da Casa Agrícola Manuel Joaquim Caldeira chegam os vinhos Quinta dos Castelares e Fronteira. Pedro Martins é peremptório ao considerar que “a força dos grande reserva é muita e podem vir a estar no seu auge daqui a 6 ou 7 anos”. Pelo meio tivemos de falar sobre o Castelares Reserva Tinto que “até pode vir a ser que esteja mais bebível que os outros”. Guardaremos o Quinta dos Castelares Grande Reserva e o Fronteira Grande Reserva.


Qualidade agora e mais tarde

Na abordagem a Pedro Sequeira (Quinta do Isaac e Quinta dos Montes) comecei logo por dizer: aposto que todos os “teus” quatro vinhos que temos na Póvoa de Varzim têm potencial de guarda. 

O Pedro respondeu: “Concordo contigo os 4 vinhos estarão óptimos daqui a 4 anos mas a ter que escolher dois a minha opção é (primeiro) Quinta do Isaac 2015 pois acredito que ao fim de 7 anos de estágio em garrafa este vinho vai mostrar ainda mais toda a sua finesse e complexidade.”

Depois sugeriu algo que teremos de anotar para informação dos muitos amantes do Risu dos Montes.

“Acredito que ao de fim de 4 anos de estágio em garrafa além do que este vinho mostra agora, como os taninos mais marcantes e a sua juventude irrequieta a necessitar de respirar, virá a mostrar harmonia e complexidade apesar de continuar irrequieto”


Na terra do Encruzado...

No Dão, Filipe Pereira da Magnum Wines, queria sugerir dois brancos (eu sabia) mas acabou por sugerir um tinto para equilibrar a sugestão. “Se eu tivesse de escolher dois vinhos para guardar, escolhia provavelmente os seguintes: Vinha da Neve Branco, e Ribeiro Santo Encruzado. Como quero apresentar uma proposta balançada (Branco & Tinto) proponho os seguintes: Pedro & Inês Tinto e Vinha da Neve Branco.”
Vamos pela primeira sugestão do Filipe e guardar uma Vinha da Neve Branco e Ribeiro Santo Encruzado, ambos de 2016.
 

...e do Alfrocheiro
O Jorge Reis também me telefobou para falar dessa "ideia muito interessante". E deixou a promessa de que numa próxima visita lá poderemos provar uns vinhos que para lá tem guardados e a envelhecer muito bem na garrafa. Atendendo às colheitas que cá temos começou por sugerir o Vinha de Reis Alfrocheiro 2017 e o tal Wine Note 2015. Mas não terminou sem referir "se quiser guardar um vinho branco esse será o Vinha de Reis Encruzado 2018."

 

As surpresas beirãs

Da Quinta dos Termos chegou também uma entusiástica reacção do Pedro Carvalho.

“Excelente iniciativa! Tendo em consideração a nossa experiência, e tendo que escolher apenas dois, acho que os vinhos que têm maior potencial de guarda são o Reserva do Patrão Tinto (ainda temos algumas garrafas de 2006 e estão fantásticas!), e o Pecado (temos por cá algumas garrafas de 2007 e está fenomenal também).

O interesse de guardar estes dois vinhos específicos, deve-se também ao facto de terem dois estilos muito diferentes: o Reserva do Patrão Tinto com mais álcool, corpo e madeira; e o Pecado com elegância, acidez pronunciada, e pouca madeira. Por isso, previsivelmente terão uma evolução ao longo dos anos muito diferente.”
Seguem para o nosso cofre o Reserva do Patrão Tinto 2016 (o meu monocasta syrah preferido) e o Pecado de 2015.

 

Lisboa traz espumante

E eis que chegamos ao espumante. Ricardo Lopes, homem que já me sugeriu centenas (milhares?) de vinhos terá estranhado eu estar a pensar em guardar vinho e vai daí sugeriu um Touriga Nacional e um espumante.

“O Página Touriga Nacional 2018 que estará seguramente no seu melhor em 4 anos, e o espumante Berbereta, que já é um grande espumante, mas que ganhará notas de amêndoas e brioche, além de maior complexidade e volume. Nota que as garrafas de espumante devem ser guardadas em pé!”. Notado.

 

Vidigueira sem enganar

Chegados ao Alentejo o David Rego da Herdade do Rocim sacode a água do capote e deixa-me três opções em vez de duas. Se guardar duas garrafas é complicado, três é abuso.

O Branco, considera, é opção segura. “Olho de Mocho Reserva Branco 2018 (ou 2017). Porquê? Para evidenciar a capacidade de guarda dos brancos da Vidigueira. Já provamos edições deste vinho de 2007, 2009 e estavam em belíssima forma.”

Quanto aos tintos deixa-me a escolha entre o Olho de Mocho Reserva Tinto ou Grande Rocim.

“Qualquer um dos vinhos acima desenvolve maior elegância e finesse com o tempo. São vinhos que crescem em garrafa, se nos conseguirmos conter em bebê-los logo à chegada.” Vou guardar o Grande Rocim e abrir o Olho de Mocho.

 

Pias*, coração do Alentejo

Por fim do Monte da Capela, em Pias, de onde não esperava outra coisa a não ser a total assertividade da Clara Roque do Vale.

“Acho muito bem (guardar os vinhos) e não tenho dúvidas nenhumas sobre quais deve escolher. Os 18 Anos, branco e tinto e vai ver, como daqui a 4 anos, vai ficar agradavelmente surpreendido.”

*(um dia escrevo sobre os ditos vinhos de Pias. Os a sério e os outros)

 

Agradecendo a todos as sugestões deixo aqui esta dica para os nossos amigos e clientes. Guardem uns vinhos para abrir daqui a uns anos e comprovem se esta coisa dos vinhos de guarda faz ou não sentido. Mais do que ler sobre o assunto nada melhor do que nos colocarmos na posição de cobaias… sobretudo quando o assunto é vinho e ter de o beber. Agora ou mais tarde.

Jaime

 

2020 Janeiro 30

Tags: Vinhos de guardaTua VinhariaArcossóQuinta do IsaacQuinta dos CastelaresMagnum WinesQuinta dos TermosRomana ViniRocimMonte da CapelaVinha de Reis

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